Meus pais me perguntaram se eu aceitaria ir para um psicólogo. Fiquei surpreso. O primeiro pensamento que vem é inevitavelmente esse: "Eles acham que eu tô doido." Apesar de eu ter curiosidade em saber o quão confortável é aquela cadeira super acolchoada, vou recusar. Não quero que eles joguem dinheiro fora.
Está claro que pensar demais faz mal. Tantos pensamentos assim me fizeram mudar de comportamento. Minha incompatibilidade com qualquer garoto "normal" de 16 anos faz com que meus pais pensem que eu esteja ficando maluco. Talvez um futuro psicopata?
Tenho curiosidade, inclusive, em saber do que eu falaria com o(a) psicólogo(a). Acho que a minha "neura" mais notável é o medo. Tenho medo até do próprio medo — tenho medo de que meu medo me transforme num ermitão que não quer sair de casa de tão apavorado. Talvez eu contasse a ele(a) uma estória para justificar mais ou menos assim:
Amarrado nas mãos e nos pés, incapacitado de fazer qualquer coisa, ele sente uma das dores mais insuportáveis do mundo. Seu corpo formiga e espalham-se frios de dormência por seus membros. Sua vista está embaçada, e seus gritos soam como expiros de um cachorro se afogando, pois a faca, fazendo som semelhante ao produzido quando tenta-se cortar uma caixa de papelão com uma lâmina dentada, já abriu sua laringe e o ar, obstruído pelo sangue que escorre no corte, não está mais saindo devidamente pela boca ou pelo nariz. Pensamentos ligeiros o dizem que ele irá morrer, e que não adiantaria mais ter esperanças de que os assassinos o solte. É então que, após perder muito sangue, ele passa a sentir os movimentos da faca um pouco mais suaves e despercebe a tração das raízes de seus fios de cabelo no couro-cabeludo devido ao maço que o decapitador está segurando firmemente. A visão deixou de ter sentido pra ele. Perdeu a percepção de sons, e não sentiu mais necessidade de gritar. Seus sentidos deixaram de existir, e é assim que acaba a vida de um adolescente russo de 17 anos por neo-nazistas.
E pensar que ele foi uma criança feliz, que brincava com seus irmãos e seus amigos de rua. Morando numa família com uma mãe dona de casa e um pai administrador de escritórios que passava os dois dias de todos os fins de semana na frente da televisão. Talvez ele imaginasse seu pai fazendo alguma outra coisa da vida. Talvez ele imaginasse que seus pais se separassem ou parassem de brigar devido à folga do homem da casa. Mas ele com certeza nunca imaginou que acabaria com uma morte tão cretina, com sua cabeça sendo equilibrada sobre seu peito por uma mão de luva preta, como se fosse cabeça de manequim.
Minha maior aflição é saber que todos estamos sujeitos a algo semelhante. Pode acontecer com qualquer um. Somos indivíduos, somos livres. Podemos ferrar com quem bem entendermos. Meu maior medo é de saber que algum conhecido meu que deu sumisso foi morto a sangue frio. Minha maior tristeza é ter que me conformar com minha impotência quanto a isso tudo. Não poderei mudar nada, não adianta. Mesmo se eu virasse presidente do mundo, essa putaria continuaria.
Hoje minha irmã perguntou por que eu estava triste. Disse que era por causa do frio e do céu cinza. Menti.
