Levo praticamente uma hora e meia para chegar em casa de ônibus quando saio do meu curso de inglês, lá pelas 22 horas. Pensar e pensar são as minhas únicas motivações para não me revoltar desse ciclo verrumante que estou preso atualmente. Na volta de hoje, andei pensando em relações que envolvem a felicidade.
Felicidade é um sentimento que, como outro qualquer, é passageiro. Uma pessoa não pode "ser feliz" — do contrário equivale a dizer que você é um automótvel por estar dirigindo.

Michel Eyquem de Montaigne
Teve uma época na história, na transição da Idade Média para a Idade Moderna — o Renascimento —, na qual a ciência tomou mais autonomia e começou a desmentir "absurdos" que a Igreja afirmava, tais como o mundo ser um bloco com cachoeiras nascentes nas bordas que derramam água eternamente, num lugar hostil e cheio de monstros do mau. Esse fato causou dilema para muita gente: acreditar no que? Ciência ou Igreja? Assim surgiram muitos céticos, como o Michel de Montaigne, talvez o mais cético europeu da época, e o período foi conhecido como tempos de melancolia. Quem não acreditava em nada tinha uma vida realmente amargurada. Mas... céticos têm algum motivo para tomarem tal estilo de vida, certo? Sim: eles pensam muito. Significa que quem pensa muito tem menos da felicidade?
Os religiosos têm a religião porque não duvidam de sua doutrina, evidentemente. Logo, convenhamos, não há muita necessidade para eles de se pensar muito nessa perspectiva. Alem do mais, muitos deles se consideram "felizes". Considerando cético o antagônico de cristão, neste sentido, quer dizer então que quanto mais pensamos, mais céticos e menos felizes ficamos? Eu diria "sim" por experiência própria.
Aí cheguei em casa e achei um frasco de vidro com biscoitos doces que minha mãe comprou. Peguei um, comi e fui pro meu quarto. Alguns segundos depois, voltei, peguei outro e comi. A todo instante eu voltava à cozinha para pegar um biscoito delicioso daqueles. Minha gula por doce tem muito potencial.
"Eu sei que esse troço aqui nem deve ter chocolate de verdade, e que comer doce demais faz mal, pode me deixar diabético e sei lá mais o que." — penso. Mas, por mais que eu saiba disso tudo, impulsos irracionais me fazem comer mais. É aí que vem à mente rapidamente uma frase tosca, mas que rendeu muito: "a sensação de comer chocolate dá sentido à vida." Eu não lembro de onde eu gravei isso, só sei que precisa de uma reforma. Para variar, é mais uma concepção influenciada pelo "senso comum" corrompida de forma equivalente.
Sei que a vontade que tenho por doce é psicológica, e se eu me convencesse de que não preciso dessas "porcarias", poderia simplesmente parar de ter esses impulsos. Mas... me dou conta que eu não quero parar com isso. O que sinto quando levo à boca algo açucarado não é algo que dá sentido à vida, mas, na verdade, é felicidade. E concluo que a felicidade também não é o que dá sentido à vida, mas é o que mascara nossa filosofia, esconde nossos pensamentos, nossas preocupações, nossa racionalidade. É o que nos faz parar de ter necessidade de pensar e nos convence que essa interrupção é uma coisa boa.

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